Revista EXIT! nº 13, Janeiro de 2016 RESUMOS


 
RESUMOS
 
 
 

 

Daniel Cunha:
O ANTROPOCENO COMO FETICHISMO
 
Em ciência chama-se antropoceno ao período da história da Terra dominado pelo Homem, onde o Homem exerce um controle cada vez maior sobre os ciclos naturais. DANIEL CUNHA, no ensaio O antropoceno como fetichismo, mostra a insustentabilidade deste conceito: não é o Homem em si, mas o capitalismo, na sua dinâmica destrutiva, que leva à destruição do meio ambiente à escala planetária. De modo nenhum se pode falar aqui de controle, pois a dinâmica cega da valorização capitalista é exactamente o contrário de um controle social consciente. Na "geo-engenharia" torna-se particularmente clara a insanidade da "racionalidade" capitalista, ou dominação moderna da natureza, que conhece a natureza sempre apenas como substracto para a valorização do capital (pelo menos no sentido da ciência aplicada na economia empresarial) e consegue cobrar um ambiente habitável de amanhã aos interesses lucrativos de hoje. O autor mostra as perturbações dos ciclos globais pelo capitalismo e esboça diversas "contramedidas" já apodrecidas (como o regime de comércio de emissões) que, de facto, fracassaram completamente, porque não enfrentam o problema real nem as suas causas. É justamente este fim em si mesmo da valorização do capital que é preciso rebentar, se a humanidade quiser viver um futuro digno de ser vivido em termos de ambiente natural. O tradutor aborda criticamente o texto e os seus aspectos problemáticos num posfácio.
 
 
Roswitha Scholz
CRISTÓVÃO COLOMBO FOREVER?
Para uma crítica das actuais teorias da colonização no contexto do "Colapso da modernização"
 
ROSWITHA SCHOLZ no artigo Cristóvão Colombo forever? discute as recentes teorias da colonização no contexto do "Colapso da modernização". Tais teorias ganharam ímpeto no debate da esquerda, pelo menos desde o crash de 2007/2008. Segundo Klaus Dörre, o pressuposto básico, apesar de todas as diferenças em cada abordagem, é que o capitalismo precisa de um exterior para continuar a existir. Frequentemente pressupõe-se uma "acumulação primitiva" sucessivamente repetida. Esta não é considerada limitada aos primórdios do capitalismo, mas é declarada a lei central eterna do capitalismo. Scholz, neste ensaio, contrapõe ao teorema da colonização e correspondentes hipóteses de uma permanente "acumulação primitiva" a dinâmica nuclear do capital como “contradição em processo". Para evidenciar as diferenças relativamente à crítica da dissociação-valor, Scholz foca-se nas concepções de colonização de Klaus Dörre e Silvia Federici, proeminentes não só na Alemanha, sendo que se pode atribuir Dörre uma orientação mais sindical e a Silvia Federici uma orientação mais feminista-operaista. Neste contexto, o artigo prossegue também com a dimensão negligenciada por Dörre e Federici das guerras civis mundiais hoje. Mas Scholz também mostra que não é suficiente colocar no centro a "contradição em processo", pelo contrário, a dissociação-valor tem de ser ser entendida como contexto dinâmico de base. Para, entre outras coisas, fazer justiça às diferentes disparidades sociais (económicas, racistas, anti-semitas, etc.) com as suas qualidades próprias, ela tem em conta a dialéctica negativa de Adorno, que sem formalismos está em conformidade com a lógica do não idêntico da crítica da dissociação-valor.
 
 
Gerd Bedszent
NIGÉRIA - DE PARAÍSO DO PETRÓLEO A ESTADO QUE SE DESFAZ
 
GERD BEDSZENT, com o artigo sobre a Nigéria, continua a descrição, já iniciada com a antologia Zusammenbruch der Peripherie [O colapso da periferia], dos horríveis cenários de dissolução nas zonas periféricas da modernidade capitalista. Este país da África Ocidental é de facto extremamente rico em recursos naturais, especialmente petróleo. No entanto, as receitas das exportações de matérias-primas não beneficiaram qualquer programa de modernização do Estado-nação, mas desapareceram completamente nos bolsos de uma elite que se enriquece agindo criminosamente. O que ainda restava dos projectos de modernização surgidos do dia para a noite na década de 1970 seria cada vez mais desmantelado sob a pressão das reformas estruturais neoliberais. Bedszent constata, em resultado deste desenvolvimento e do simultâneo declínio da produção agrícola tradicional, uma base crescente e já não redutível de pobreza estrutural e de desemprego em massa. Como consequências, ele menciona os sangrentos conflitos entre as elites de diferentes grupos étnicos pela distribuição da maior parte possível dos lucros de exportação, bem como a ascensão de grupos e movimentos ideológicos obscuros. A furiosa guerra civil actual no norte da Nigéria e nas regiões vizinhas entre o exército e militantes islâmicos será em última análise uma luta entre gangues de saqueadores armados que esquartejam com proveito os restos do projeto de modernização falhado. À população resta apenas a fuga da região tornada inabitável.
 
 
Robert Kurz
IMPERIALISMO DE EXCLUSÃO E ESTADO DE EXCEPÇÃO
 
Uma vez que a crise fundamental se tem agudizado cada vez mais, em crashes financeiros, bancarrotas nacionais, conflitos armados, movimentos de refugiados, fome e miséria e não só, vamos publicar de novo nesta edição certas partes do livro esgotado Weltordnungskrieg [A guerra de ordenamento mundial] de ROBERT KURZ. Dada a miséria dos refugiados, no contexto de um ser supérfluo generalizado no decurso do tornar-se obsoleto do trabalho abstrato, a que corresponde o terror da exclusão e uma expansão global cada vez mais visível do estado de excepção, queremos combater também uma (nova) ausência de ideias, que se exprime bem, na sua forma mais aberta, mais brutal e mais imediata, na construção de muros e em actos de violência racista, mas pode assumir formas muito mais subtis e mais hipócritas (por exemplo, na restrição do direito de asilo) e exprimir-se numa suspeita e demasiado "amigável" cultura de boas-vindas. É preciso mostrar aqui que o estado de excepção tem uma longa história, que é mesmo decididamente constitutivo para o capitalismo desde o seu surgimento, e que é necessária uma crítica radical e categorial para abolir as respectivas estruturas. Neste sentido, selecionámos do livro de Kurz capítulos e passagens que têm por temas "imperialismo de exclusão" e "estado de excepção". Já está em andamento uma reedição do livro.
 
 
Richard Aabromeit
VALOR SEM CRISE - CRISE SEM VALOR?
Sobre a ausência de uma teoria da crise em Moishe Postone
 
O círculo de leitura da crítica da dissociação-valor de Dresden organizou em Maio de 2014 um seminário sobre o tema "Moishe Postone entre a crítica do valor e o marxismo tradicional". Como síntese dos resultados devem aparecer na EXIT! ao todo três artigos: Roswitha Scholz começou na EXIT! 12 (Após Postone); na edição actual RICHARD AABROMEIT continua esta série com o texto Valor sem crise - crise sem valor? e no próximo número está previsto um artigo de Bernd Czorny sobre o conceito de tempo em Postone. Richard Aabromeit debate-se com a questão de saber porque não formula Postone nenhuma teoria da crise nem apresenta qualquer esboço dela, nem sua obra principal Tempo, trabalho e dominação social nem em textos posteriores. Aabromeit tenta encontrar uma explicação na base de quatro causas possíveis. Primeiro, faz notar que para Postone a dialética de transformação (isto é, a transformação dos meios de produção, forçada pela concorrência, para uma cada vez maior produtividade) e reconstituição (ou seja, a forma de valor reconstruída em conclusão disso), na nossa formação social, representa uma forma de movimento contínuo, retornando quase sem fim, o que é de facto inadequado como fundamento para uma teoria da crise. Em segundo lugar, de acordo com Aabromeit, o conceito de "trabalho" em Postone não é percebido com suficiente clareza, o que também traz problemas ao conceito de valor, sem o qual, por sua vez, não pode funcionar uma teoria da crise. Em terceiro lugar, é preciso ver no facto de Postone abandonar quase completamente o diagnóstico socialmente crítico do presente e a mediação entre teoria e empiria histórica bem assente nesse diagnóstico outro obstáculo para o acesso a uma teoria da crise. Um quarto problema é a posição de Postone de que o valor é apenas uma relação de mediação social e, portanto, sem substância. Apesar dessas observações críticas, os méritos de Postone em relação à reconstrução do conceito de valor em Marx não devem ser negados; no entanto, ele não pode ser poupado à crítica por não ter ousado levar a sua reconstrução de Marx até à reformulação de uma teoria radical da crise.